domingo, 30 de agosto de 2026

A Teoria da Vida do Presidente Daisaku Ikeda

A Teoria da Vida do Presidente Daisaku Ikeda 

 Estudos de Educação Soka, Nº 3: Autores- Dong Wu, Wang Weiying


 A questão sobre a essência da vida é também uma questão fundamental da filosofia e da religião.:

"De onde vem a vida e para onde ela vai?" 


  Este, que é o maior dilema da existência humana, constitui tanto o ponto de partida quanto a conclusão da filosofia e da religião. Ao focarem neste problema, a filosofia e a religião passaram a direcionar sua atenção ao propósito e ao significado da vida humana, buscando, assim, explicar a ‘preocupação última’ da humanidade.

  Do mesmo modo, como pensador religioso, o aspecto mais fascinante de todo o sistema de pensamento do Dr. Daisaku Ikeda é a sua teoria da vida. Esta não constitui apenas o ponto de partida para todo o desenvolvimento de suas ideias, mas serve também como o fundamento teórico-filosófico mais sólido de seu sistema de pensamento. 

  Em outras palavras, é precisamente a profunda reflexão do Dr. Ikeda sobre a vida que sustenta sua antropologia filosófica e seus ideais e práticas de revolução social. Portanto, compreender profundamente a teoria da vida do Dr. Ikeda significa conhecer onde reside o cerne de todo o seu sistema de pensamento e de sua prática. 

1. O Universo é um Oceano de Vida

  Para investigar a origem da vida, deve-se, primeiramente, retroceder às questões fundamentais do universo. Sobre este tema, existem teorias como a do Big Bang e a dos universos múltiplos. O Dr. Ikeda reconhece que a capacidade de percepção humana possui limites em relação a qualquer uma dessas teorias. 


  De acordo com o efeito Doppler, as nebulosas estão se distanciando umas das outras em todas as direções a velocidades impressionantes. A uma distância de 20 bilhões de anos-luz da Terra, as ciências naturais da humanidade deixam de ser capazes de exercer plenamente o seu potencial.
O espaço dentro desse raio de 20 bilhões de anos-luz constitui o universo observável; o que está além, oculto atrás da ‘radiação cósmica de fundo’, pertence a um domínio inacessível à percepção humana. A partir daí, o tema transcende o escopo da ciência e se converte em uma questão puramente filosófica — ou seja, um campo do pensamento e da imaginação humana(1).


  O tamanho do universo é finito ou infinito?

  Que tipo de origem o universo possui? 


  No que tange à questão da essência do universo, ela é, ‘em última análise, de uma natureza que deve ser confiada à filosofia e à religião’.  Aqui, ao filosofar e trazer uma abordagem religiosa para esta questão científica, o Dr. Ikeda permite que as pessoas transitem instantaneamente do mundo material objetivo para o mundo da subjetividade religiosa; a partir daí, a percepção religiosa sobre a essência da vida passa a obter um embasamento racional livre e desimpedido. 

  No Budismo, o universo é descrito como ‘três mil grandes mundos de quinhentos, dez mil, cem milhões, nayutas, asankhyas’ [de kalpas](3). O termo ‘nayuta’, no conceito numérico atual, equivale a cem bilhões, enquanto ‘asankhya’ corresponde a dez elevado a cinquenta e um (1051). Trata-se, portanto, de um número gigantesco e incalculável. 

  Além disso, no Budismo, considera-se que o universo é infinito, imensurável, sem limites, e que não possui começo nem fim. Diante de tal imensidão cósmica, como teria surgido a vida? O Dr. Ikeda afirma: 'Se tentarmos compreender o surgimento da vida no universo baseando-nos apenas nos dois conceitos de existência e não existência, seremos forçados a dizer que a vida originou-se do nada' (4) . No entanto, o Budismo rejeita essa visão, pois compreende que a vida transcende os conceitos de existência e não existência.

  Nesse sentido, compreende-se que 'o próprio universo — incluindo a Terra — é essencialmente uma entidade viva que contém a vida em seu estado de 'kuu' (空 potencialidade latente). Quando as condições para que ela se manifeste como uma realidade tangível 'U' (有 manifestação fenomênica) estão reunidas, a vida tem o potencial de emergir como um organismo vivo em qualquer parte do universo' (5).  O Dr. Ikeda explica que 'o próprio universo possui o poder de gerar seres vivos, e a vida está latente e imanente mesmo na matéria inanimada'’(6), considerando ainda que 'o grande universo em si é um único e imenso organismo vivo’(7)

  Em suma, o próprio universo, incluindo a Terra, é intrinsecamente uma entidade viva que encerra a vida no estado de 'kuu', ou seja, latente. Assim que surgem as condições adequadas para que esta se manifeste como "u", existe a possibilidade latente de a vida emergir como um ser vivo em qualquer lugar do universo. 
  Portanto, o Dr. Ikeda observa que ‘o próprio universo é um "oceano de vida" que engloba o poder de fazer nascer a vida’(8).

  O universo sempre foi considerado como um ‘vácuo’ onde nada existia, mas, na realidade, trata-se de um espaço vital que gera constantemente a ‘matéria’. Esta descoberta é uma grande conquista comprovada pela ciência do século XX. O vácuo na física moderna não é ‘vazio’; se pudéssemos expressar sua essência nos termos atuais, diríamos que, na nossa ciência, ele é uma forma de existência da matéria fundamental que abarca todas as coisas. 

  Albert Einstein analisou que o espaço físico ‘não é um mero vazio com extensão, mas que suas próprias propriedades influenciam os objetos nele existentes e, dadas certas condições, contêm o potencial de gerar matéria’(9). Dessa forma, a percepção espacial da física moderna e o conceito de ‘kuu’ do Dr. Ikeda possuem uma profunda afinidade. Além disso, a perspectiva do Dr. Ikeda sobre a origem da vida baseada no ‘kuu’ obteve a fundamentação da ciência contemporânea.



  Na visão cosmológica do ‘kuu’ do Dr. Ikeda, o ‘kuu’ não é apenas um tipo de força de criação vital, mas também uma modalidade da própria vida. É também a força motriz que gera novos seres vivos e transformações materiais, uma força criativa imanente ao universo, e uma existência real de uma mística ‘não-substancialidade’ (isenta de substância material). 

  Portanto, a visão cosmológica do Dr. Ikeda constitui, na verdade, uma visão da grande vida que professa que ‘o universo é a própria vida, e a vida é o próprio universo’. Esta visão da vida encarna um forte espírito de investigação científica e é repleta de um caráter de reflexão intelectual; em comparação com o mito da criação de ‘Deus criando o homem’, ela possui uma fundamentação científica convincente para as pessoas. 
  Por conseguinte, o sistema de pensamento do Dr. Ikeda, construído sobre este alicerce, passa a possuir também uma poderosa força de fé.

2. A Vida é o Autor e a Obra

  O Dr. Ikeda afirma que ‘diante do fato solene que é o nascimento da vida, devemos reunir toda a sabedoria da ciência, da filosofia e da religião para investigar esse tema crucial’(10). No que tange à origem da vida, a teoria geralmente respaldada é a da abiogênese (geração espontânea). Esta teoria tem sido comprovada por meio da descoberta de fósseis de organismos em estágios primitivos e pela síntese artificial de compostos orgânicos simples. 

  Especificamente, a forma de vida mais precoce surgiu quando a matéria orgânica foi gerada a partir de substâncias inorgânicas, vindo a formar proteínas, e o metabolismo dessas substâncias deu origem aos organismos vivos. No entanto, o Dr. Ikeda aponta que esse tipo de interpretação sobre a origem da vida apreende a vida meramente como um fenômeno material.
  Ele ressalta que, ao investigar o processo do nascimento da vida: ‘A questão que desejo levantar não é "como", mas "por que" a vida pôde nascer em um mundo de matéria inanimada. 

  Este é um tema que não se restringe apenas ao aspecto dos fenômenos materiais; trata-se de um tema que exige um aprofundamento maior, até alcançar a própria essência da vida’(11). Em outras palavras, pode-se dizer que a filosofia religiosa vai um passo além da ciência; ela não se satisfaz em apenas esclarecer o processo do surgimento e da origem da vida, mas considera que se deve elucidar, adicionalmente, a causa da origem da vida. 

  A questão não é como a vida nasceu na Terra, mas sim por que a vida nasceu neste planeta.


  O Dr. Ikeda afirma logicamente: 'O fato de a vida ter surgido na Terra, que presumivelmente era inanimada em seus primórdios, sugere que a própria Terra inanimada já trazia em si um direcionamento voltado para a vida' (12). A vida nunca é uma entidade passiva, mas sim uma entidade ativa. De onde teria vindo essa natureza ativa da vida, que pode ser descrita como um 'dinamismo intrínseco' (espontaneidade ativa)? 

  O Dr. Ikeda diz: 'Acredito que o processo no qual a vida, contida dentro do inanimado, manifestou a si mesma é precisamente o que significa a origem da vida' (13). É exatamente neste ponto que reside a razão pela qual o Dr. Ikeda discorda da visão que considera a origem da vida como uma espécie de 'novo produto criado'. Pois, se a vida tivesse sido criada do nada, necessariamente teria de haver um criador, o que levaria, por consequência natural, a reconhecer a existência de um 'Deus' criador.

  Como uma interpretação precisa sobre a origem da vida, o Dr. Ikeda adota a teoria da 'manifestação'. A chamada 'manifestação' refere-se ao processo pelo qual algo que originalmente já existia se torna explícito ou tangível. A esse respeito, Arnold J. Toynbee também observa: 'Qualquer mudança que apareça torna-se, na verdade, mera ilusão. Isso porque tanto o que existe agora quanto o que existirá no futuro já estariam presentes desde o início. Todos os acontecimentos passariam a ser interpretados como a manifestação gradual de elementos da realidade que já estavam originalmente latentes'(14)

  De acordo com essa perspectiva, fundamentalmente não existe nada no mundo que tenha surgido do nada absoluto; o que existe no presente e o que virá a manifestar-se no futuro nada mais é do que a exteriorização de elementos originalmente existentes. Isso significa também que a existência de todas as coisas passa por um processo de transição do 'latente' para o 'manifesto'. Portanto, essa manifestação fenomênica e provisória da vida ocorre dentro da própria realidade da existência, e não como algo que brota do vazio.

  O Dr. Ikeda abraça positivamente a ideia de que a vida possui a natureza de que 'desde o nascimento da Terra até o presente, ela tem mantido continuamente sua própria manifestação e surgimento, direcionando-se no sentido de desenvolver-se de forma individualizada'.
  O fato de haver uma natureza ativa nessa vida que se individualiza pode ser chamado de ‘a força da energia vital’, a qual, segundo ele, ‘já devia estar imanente na própria Terra inanimada’(15)
  Nesse sentido, pode-se dizer que ‘a vida é, em si mesma, o autor e a obra’(16).  Aqui, faz-se necessário aprofundarmos nossa compreensão sobre o conceito de 'vacuidade' (o estado latente da vida), ao qual o Dr. Ikeda se refere repetidamente. Isso porque somente ao compreendermos esse conceito de vacuidade é que nos tornamos capazes de entender a verdadeira natureza da existência da vida.

  Afinal, é apenas ao compreendermos esse conceito de 'vacuidade' que nos tornamos capazes de entender a verdadeira natureza da existência da vida. O Dr. Ikeda explica que essa vacuidade representa um estado de existência que transcende as palavras e que não se manifesta como um fenômeno visível. Contudo, trata-se de uma forma de realidade; e, pelo fato de não ser perceptível aos olhos, pode-se dizer que ela acaba sendo frequentemente confundida com o 'nada'.

  Contudo, assim que essa realidade entra em contato com uma causa externa (o elo de ligação), ela se manifesta sob uma forma visível a olho nu; portanto, torna-se impossível chamar tal existência de 'nada'. Por conseguinte, esse estado não pode ser expresso meramente através dos termos 'existência' ou 'inexistência'. Essa chamada 'vacuidade' é, na verdade, uma realidade que transcende a dualidade entre o ser e o não ser, não sendo nem uma 'existência absoluta' (verdadeiro ser) e nem um 'vazio ilusório'. Trata-se de um 'espaço vital' que encerra um potencial imensurável e possui uma força criativa infinita. Esse conceito se assemelha muito à ideia de 'campo unificado' da física moderna.

  O Dr. Ikeda utiliza o conceito budista de vacuidade para interpretar a origem do universo e o surgimento da vida. Ao fazer isso, ele unifica a cosmologia e a teoria da vida, conferindo uma identidade intrínseca comum ao universo, à Terra e ao ser humano. Ele argumenta que o conceito atual sobre a vida é demasiadamente estreito, limitando-a a uma mera existência biológica. Essa visão restritiva faz com que reconheçamos a vida apenas como algo material e tangível, negligenciando a busca pelo seu significado essencial.

  A visão budista da 'Grande Vida' não apenas considera a vida biológica como uma forma de existência, mas também contempla a própria força capaz de gerar a vida como uma realidade em si mesma. O primeiro aspecto representa a sua forma manifesta, enquanto o segundo é a sua forma latente; ambos são, portanto, expressões distintas inerentes à própria essência da vida. Nesse sentido, não apenas o ser humano, a Terra e o universo são formas de vida, mas todos eles compartilham inevitavelmente uma comunidade de ser, fundamentada em uma mesma e profunda identidade.

Portanto, embora o ser humano, a Terra e o universo difiram em suas formas externas, eles são essencialmente um só: o universo é o próprio ser humano, e o ser humano é o próprio universo. Esta vertente de pensamento representa uma evolução teórica original desenvolvida pelo Dr. Ikeda na história do pensamento humano, reinterpretando sob uma nova luz as tradições filosóficas clássicas, tais como a concepção indiana de 'Tu és Isso' (Tat Tvam Asi) e a visão chinesa de que 'A minha mente é o próprio universo'.

  Por meio das reflexões expostas acima, torna-se possível compreender, primordialmente, a profunda fundamentação científica contida na visão da 'Grande Vida' desenvolvida pelo Dr. Ikeda. Ao aplicar o conceito budista de vacuidade à teoria do 'espaço de campo' da física moderna, ele estabeleceu um elo entre ambos, partindo de um posicionamento sólido alicerçado em seu próprio pensamento religioso. Esse feito representa também um caminho de evolução pelo qual o pensamento religioso tradicional oferece uma nova direção e um horizonte de desenvolvimento diante do mundo moderno, altamente moldado pelo avanço da ciência.

3. A Inseparabilidade de Vida e Morte (Shoji Funi)

  A teoria da vida do Dr. Ikeda não apenas obteve êxito em 'descobrir' a identidade intrínseca entre o universo e o ser humano por meio do conceito de vacuidade, mas também foi capaz de transcender a 'morte' através desse mesmo conceito. Ao sublimar teoricamente esta questão, que é a mais crucial para a humanidade, ele desenvolve o conteúdo mais central e revolucionário de sua antropologia.

  Como diz o antigo ditado: 'Ainda que se viva sob o teto de um palácio de ferro por mil anos, no final tudo o que se precisa é de uma simples sepultura de terra'. Desde os tempos remotos, a morte tem sido um terror essencial que oprime as profundezas mais profundas e graves do coração humano. Por mais que a ciência avance e a sociedade se desenvolva, 'onde há vida, há morte, e todos os seres humanos, sem exceção, devem morrer'. Embora este seja um problema que nenhum indivíduo consiga resolver por si só, ele continua sendo o enigma supremo que a religião — voltada para a preocupação mais fundamental da humanidade com a finitude da vida e o momento da morte — tem o dever inescapável de solucionar.

  Então, de que maneira o Dr. Ikeda solucionou esse problema? Adotando uma postura centrada no Sutra do Lótus, ele absorveu as realizações teóricas da filosofia da vida desenvolvidas desde a época de Nichiren Daishonin, elevando o conceito de vacuidade ao seu nível máximo de desenvolvimento e realizando uma reflexão original e profunda sobre a morte. O Dr. Ikeda afirma: 'Normalmente, pensa-se que a vida começa com o nascimento e termina com a morte. Contudo, Nichiren Daishonin ensina que a vida é eterna, abrangendo o passado, o presente e o futuro; e que tanto a vida quanto a morte são realidades inerentes e primordiais (hon'u), originárias da própria essência da vida' (17)

  Portanto, o Dr. Ikeda defende o seguinte: 'Pode-se dizer que a própria vida é uma realidade sem começo nem fim, que atravessa e transcende o tempo e o espaço' (18)
  Além disso, ele afirma: 'Originalmente, existe a realidade de uma vida eterna que transcende o nascimento e a morte. Ela não pode ser queimada pelo fogo mais devastador que venha a consumir o mundo inteiro, nem ser destruída ou corrompida pela água. Não pode ser cortada por espada alguma, nem ser atingida mesmo pela mais precisa das flechas. 

  Ainda que contida no interior de uma minúscula e microscópica semente de mostarda, a semente não se expande por isso; e, mesmo se preenchesse e transbordasse por todo o universo infinito, o próprio cosmos não se tornaria grande demais para ela. Em suma, a vida manifestada em um único instante (ichinen) é uma realidade imutável que supera toda e qualquer relatividade entre nascimento e morte, surgimento e extinção, grandeza e pequenez, ou amplitude e estreiteza'' (19). Em suma, 'o ciclo de transmigração da vida é eterno. Este é o grande princípio do Budismo’(20)

  Para ilustrar melhor esse grande princípio, o Dr. Ikeda apresenta o seguinte exemplo: 'Se compararmos isso a um único dia, o sol nasce e nós acordamos. Isso corresponde ao "nascimento". Como uma extensão desse nascimento, iniciam-se as atividades do dia. Ao término das ações diárias, pegamos o caminho de volta para casa a fim de aliviar o cansaço. À noite, deitamo-sem nossa cama para descansar e nos preparar para o "nascimento" do dia seguinte. Isso representa, por assim dizer, a "morte" de um dia. 

  Da mesma forma, após concluir as valiosas atividades de uma existência inteira, manifestamos a forma provisória da "morte" com o propósito de adquirir uma nova e vigorosa força vital’ (21). Isto é precisamente o que o Sutra do Lótus ensina por meio do conceito de 'manifestar a morte como um meio hábil' (方便現涅槃). Portanto, a 'Inseparabilidade entre Vida e Morte' defendida pelo Budismo Mahayana significa que o nascimento e a morte são meros fenômenos que ocorrem dentro do tempo e do espaço. A verdadeira essência da vida é uma realidade que transcende esse tempo e espaço, possuindo nessas duas fases apenas formas distintas de manifestação. 

  Cada organismo vivo representa um estado no qual a vida se manifestou. A chamada 'morte' é, na verdade, um estado em que a vida se encontra 'latente e imanente', e essa latência de modo algum resulta no nada absoluto. Expandindo essa interpretação, o Dr. Ikeda explica que o conceito de não-substancialidade (kuu) refere-se a algo que, embora invisível aos olhos, existe com absoluta certeza, não sendo um conceito que possa ser definido exclusivamente por meio da 'existência' ou da 'inexistência'. 
 
  Por outro lado, cada uma das formas que surgem nos variados estados da realidade é denominada 'existência provisória' (ke). A vida em que o corpo e a mente atuam em perfeita unidade constitui esse estado 'provisório', trazendo em seu cerne a própria vacuidade. 
  Já a vida após a morte existe no estado de vacuidade, contendo simultaneamente em si a tendência e o direcionamento para retornar a essa 'provisória' manifestação. Assim que as condições adequadas se reúnem, a forma de existência da vida realiza uma transição do estado de latência (kuu) para o estado provisório (ke), voltando a manifestar-se como uma matéria real visível a olho nu, ou seja, ocorrendo o seu 'renascimento'.

  A essência da vida, que permeia e unifica tanto o estado latente (não-substancialidade/kuu) quanto o estado manifesto (existência provisória/ke), é denominada 'o Caminho do Meio' (chuu). Essa essência vital continua a transmigrar infinitamente e de forma perpétua entre essas duas fases, manifestando-se em determinados momentos e tornando-se latente em outros. (22)

   Além disso, a vida passa pelo ciclo de nascimento e morte dentro do ritmo cósmico de desenvolvimento conhecido como as quatro fases da existência: 'surgimento, estabilidade, declínio e latência', sem jamais cessar. Isso se aplica igualmente aos seres humanos, às estrelas e ao próprio universo. 
  O Budismo elucida com clareza essa lei primordial da vida: compreende-se o 'invisível e intangível' por meio do 'visível e tangível', e compreende-se a eternidade por meio daquilo que é invisível. 

  Se a vida se encontra inserida nesse ciclo contínuo de nascimento e morte, a questão do destino humano surge de forma natural. Por conseguinte, a perspectiva espiritual da causalidade — a retribuição cármica — é deduzida com a mesma lógica. Sob a ótica budista, a lei do destino nada mais é do que a lei de causa e efeito. Tudo o que cada indivíduo realiza ao longo de uma existência transforma-se em seu próprio 'carma', tornando-se a 'causa' para a sua próxima reencarnação. 

  E para cada carma há inevitavelmente uma retribuição correspondente: as boas ações geram retribuições positivas, enquanto as ações negativas geram retribuições negativas. A causa semeada nesta vida fatalmente se tornará o fruto na próxima existência. 
  Assim como 'quem semeia melão colhe melão, e quem semeia feijão colhe feijão', não há o menor desvio na retribuição que corresponde a cada causa específica.

  Cada indivíduo colhe os frutos das causas que ele próprio semeou. Atualmente, devido à ausência de uma comprovação científica definitiva, somos compelidos a aceitar as teses da filosofia e da religião no que tange à questão da eternidade da vida. 
  A esse respeito, o Dr. Ikeda observa: 'Certamente, a capacidade intelectual humana possui limites e acredito que as definições a respeito da essência da vida humana ou daquilo que jaz no âmago último do universo — que extrapolam esse limite — são inevitavelmente forçadas a permanecer como "hipóteses" (23).

  Se a existência humana se resumisse, de fato, apenas à vida presente, a questão do destino após a morte deixaria de ser um problema. No entanto, é perfeitamente concebível que essa disparidade na forma de conceber o que ocorre após a morte exerça uma influência profunda sobre a própria maneira como conduzimos a nossa vida neste mundo' (24)

  Nesse sentido, a respeito da hipótese budista da transmigração da vida e de sua existência eterna, o Dr. Ikeda defende o seguinte: 'A "hipótese" budista de que a vida perpetua-se através de um ciclo contínuo de renascimentos possui grande eficácia para explicar o fato de que os seres humanos já nascem dotados de carmas individuais imensamente distintos e variados’ (25)

  E esse fato, conforme ele complementa, 'permite ao ser humano conscientizar-se de que não é governado por um ser transcendente exterior a si mesmo, mas sim de que ele próprio é o único e total responsável por tudo o que lhe acontece, tornando possível, a partir daí, estabelecer uma subjetividade primordial e inabalável’ (26)

  É precisamente neste sentido que o Dr. Ikeda considera a causalidade budista — a lei de causa e efeito — como um elemento central da Revolução Humana, afirmando que ela 'guarda a chave para estabelecer a responsabilidade e a subjetividade humana em sua dimensão mais primordial' (27). Além disso, ele adverte: 'Caso contrário, cairíamos no imediatismo e no hedonismo, o que anularia qualquer tipo de progresso. O avanço da própria era cessaria.

  A vida, então, passaria a ser tratada com excessiva leviandade, fazendo com que a autodisciplina, a benevolência para com o próximo e a contribuição para a sociedade fossem completamente esquecidas'  (28).

  Desta forma, ainda que a eternidade da vida e a lei de causa e efeito do destino que dela decorre permaneçam, em última análise, no campo das hipóteses, trata-se de uma suposição extraordinária e absolutamente necessária para o desenvolvimento da nossa sociedade humana. 
  A existência de uma hipótese como esta possui plena racionalidade, constituindo precisamente a premissa indispensável para que possamos buscar o Verdadeiro, o Belo e o Bem na natureza humana.

"As ações de um indivíduo ao longo de sua existência inevitavelmente geram resultados de ordem ética. Esses resultados possuem uma relevância profunda, estendendo-se não apenas a si próprio, mas também a toda a humanidade e ao universo inteiro".

  E é precisamente por conta dessa intrincada rede de causas e condições que a vida ganha significado e a própria religião adquire o seu sentido de ser. Como pudemos observar ao longo desta reflexão, o Dr. Ikeda, em sua filosofia da vida, resgatou os elementos de maior significado de dentro do pensamento budista tradicional. 

  Partindo da visão espiritual sobre a vida e a morte, ele extraiu um tema dotado de ainda maior valor e relevância: a forma como os seres humanos devem conduzir suas vidas. A partir disso, compreende-se a clara distinção entre o Budismo Mahayana (o Sutra do Lótus) e as vertentes do Budismo Hinayana. 
  Em última análise, a essência do Budismo baseia-se na própria mente e no coração humano. Dessa forma, o Dr. Ikeda elucidou teoricamente a possibilidade e a necessidade da Revolução Humana, estabelecendo uma sólida base filosófica para a sua própria prática humanitária, social e pacifista.


Fim


Autores: 
Dong Wu (董武)Afiliação Institucional: Pesquisador do Centro de Estudos Japoneses e da Associação de Pesquisa Daisaku Ikeda na Universidade de Pequim (Peking University). Atuou também como professor associado no Instituto de Administração de Pequim (Beijing Administration Institute)

Perfil e Atuação: Graduou-se pela Escola de Relações Internacionais da Universidade de Pequim. Sua linha de pesquisa concentra-se em relações internacionais, diplomacia chinesa e sistemas governamentais, além de estudos aprofundados sobre filosofia oriental. Como membro ativo do grupo de pesquisadores voltados ao pensamento de Daisaku Ikeda, publicou diversas análises sobre a contribuição da Soka Gakkai para a amizade nipo-chinesa e as bases humanísticas de sua filosofia. É autor do livro "A Soka Gakkai Japonesa", publicado em 2009 na China.

Wang Weiying (王偉英)
Afiliação Institucional: Professora Associada na Faculdade de Língua e Cultura Chinesa de Pequim (Beijing Chinese Language e Culture College), atuando posteriormente como pesquisadora convidada e colaboradora da Associação de Pesquisa Daisaku Ikeda na Universidade de Pequim.

Perfil e Atuação: É uma acadêmica dedicada ao estudo da pedagogia voltada a valores humanos e à "filosofia da dignidade da vida". Sua cooperação com a Universidade de Pequim e com a Universidade Soka envolveu a apresentação de artigos e ensaios focados na intersecção entre o budismo Mahayana e a ciência moderna. Além da autoria conjunta com Dong Wu neste tratado sobre a teoria da vida, ela possui produções individuais notórias no ambiente acadêmico chinês, tais como o ensaio "A Dignidade da Vida: Uma Abordagem sobre o Pensamento Humanístico do Dr. Daisaku Ikeda".


Notas de referência:

(1) TOYNBEE, Arnold; IKEDA, Daisaku. Escolha a Vida: Diálogo sobre o século XXI. Bungeishunju, 1975, p. 236.
(2) Ibidem, p. 242.
(3) IKEDA, Daisaku. Diálogos sobre o Budismo e o Universo, Vol. 1. Ushio Shuppansha, 1984, p. 182.
(4) TOYNBEE; IKEDA, op. cit., p. 215.
(5) TOYNBEE; IKEDA, op. cit., p. 216.
(6) TOYNBEE; IKEDA, op. cit., p. 247.
(7) Ibidem, p. 247.
(8) TOYNBEE; IKEDA, op. cit., p. 216.
(9) TOYNBEE; IKEDA, op. cit., p. 255.
(10) IKEDA, Daisaku. A Terceira Ponte do Arco-Íris. Mainichi Shimbun, 1987, pp. 229-230.
(11) TOYNBEE; IKEDA, op. cit., p. 212.
(12) TOYNBEE; IKEDA, op. cit., p. 212.
(13) Ibidem, p. 212.
(14) TOYNBEE; IKEDA, op. cit., p. 213.
(15) TOYNBEE; IKEDA, op. cit., p. 214.
(16) TOYNBEE; IKEDA, op. cit., p. 213.
(17) IKEDA, Daisaku. Diálogos sobre o Budismo e o Universo, Vol. 2. Ushio Shuppansha, 1984, p. 245.
(18) IKEDA, Daisaku. Diálogos sobre o Budismo e o Universo (Vol. 1), op. cit., p. 71.
(19) IKEDA, Daisaku. Diálogos sobre o Budismo e o Universo (Vol. 1), op. cit., pp. 70-71.
(20) IKEDA, Daisaku. Diálogos sobre o Budismo e o Universo (Vol. 2), op. cit., p. 86.
(21) Ibidem, p. 86
(22) TOYNBEE; IKEDA, op. cit., p. 232.
(23) TOYNBEE; IKEDA, op. cit., p. 223.
(24) TOYNBEE; IKEDA, op. cit., p. 360.
(25) TOYNBEE; IKEDA, op. cit., p. 224.
(26) Ibidem, p. 224.
(27) TOYNBEE; IKEDA, op. cit., p. 367.
(28) IKEDA, Daisaku. Diálogos sobre o Budismo e o Universo (Vol. 2), op. cit., p. 80.