Comparação Quíntupla
A Comparação Quíntupla (五重の相対 gojū-no-sōtai) é um dos métodos de avaliação dos ensinamentos religiosos. Nesse método, são utilizados cinco níveis sucessivos de comparação apresentados por Nichiren Daishonin em sua obra A Abertura dos Olhos, para demonstrar a superioridade do seu ensinamento, o Nam-myoho-renge-kyo, sobre todas as outras doutrinas.
O propósito da Comparação Quíntupla é esclarecer qual religião ou filosofia pode fazer, de maneira real e efetiva, com que as pessoas superem seus sofrimentos e atinjam um estado de felicidade indestrutível de maneira real e efetiva.
Essa comparação implica em avaliar os diferentes ensinos com base na forma que explicam a causa e o efeito na vida, ou seja, a causalidade para atingir o estado de Buda.
Na Abertura dos Olhos, Daishonin explica os ensinamentos do Confucionismo (Apócrifos = vários pensamentos chinesas), hereges não-budistas (religiões indianas diferentes do Budismo) e o Budismo.
E compara as doutrinas dessass religiões, baseado no princípio da Lei de Causa e o Efeito da vida que decide a felicidade e a infelicidade.
Em relação ao Budismo, Nichiren Daishonin utiliza os "Cinco Períodos e as Oito Ensinamentos" estabelecidos por mestre Tiantai da China. Tiantai, fundador da escola chinesa Tiantai, categorizou e organizou os ensinamentos concedidos pelo Buda Shakyamuni ao longo de sua vida de acordo com o período e o conteúdo.
Baseando no "Cinco Períodos e as Oito Ensinamentos", Daishonin faz as comparações para julgar as superioridade ou inferioridade de cada ensinamento através da Comparação Quíntupla.
Os Cinco Períodos e Oito Ensinos estabeelcidos por Tiantai.
Cinco Períodos:
1. Período Guirlanda de Flores (Kegon-ji) - O período durante o qual Shakyamuni pregou o Sutra Kegon por 21 dias após atingir a iluminação sob a árvore Bodhi perto da Fortaleza Gaya.
2. Período Agama (Agon-ji) - Durante o período Kegon, havia algumas pessoas que não conseguiam compreender os ensinamentos, por isso durante 12 anos ele pregou os Quatro Agon Sutras e outros ensinamentos em locais como o Jardim Dekaen em Varanasi, a fim de atrair seres sencientes para o Budismo. É posicionado como Hinayana em comparação com Mahayana.
3. Período Correto e Igual (Hoto-ji) - Durante os 16 anos seguintes (alguns dizem 8 anos), ele pregou vários sutras Mahayana, como o Amitabha Sutra e o Vima Sutra, e denunciou as vozes que estavam ligadas ao Hinayana, tornando-as assim queridas pelo Mahayana.
4. Período Sabedoria (Hanya-ji) - Por 14 anos (de acordo com uma teoria, 22 anos) em 16 templos em quatro locais como o Monte Washimine (Monte Eagle Mountain) e o Lago Hakuro, ele pregou os ensinamentos de todo vazio, como o Sutra Prajnaparamita, e elevou a essência de seres sencientes como bodhisattvas.
5. Período Lótus-Nirvana (Hokke-Nehan-ji) - Este é o período durante o qual o Sutra do Lótus foi pregado durante 8 anos no Monte Reishi em Magadha e Kokukai, e os verdadeiros ensinamentos que transcenderam Mahayana e Hinayana e permitiram que todos os seres sencientes atingissem o estado de Buda foram mantidos. Houve também um período pouco antes de sua morte, quando ele pregou o Sutra do Nirvana nas Árvores Sala, no rio Byadi, a noroeste do Castelo de Kushina (Kushinagara), e forneceu sermões suplementares para aqueles que perderam os sermões do Sutra do Lótus.
Comparação Quíntupla
Com base nesse sistematização estabelecido por Mestre Tendai, Nichiren Daishonin estabeleceu a Comparação Quíntupla.
1. Comparação entre budismo e não-budismo
A primeira comparação é entre o budismo, o “caminho interno”, e os ensinos não-budistas da Índia e da China, o “caminho externo”.
Tembém são chamados de:
Ensinamento Interior (Budismo) : Um ensinamento que busca a Lei (a causa da vida) dentro da própria vida.
Ensinamentos Exteriores(ou Outros Ensinamentos): Ensinamentos que buscam a causa da felicidade ou do sofrimento fora da vida, como em uma força divina ou em Deus.
O Budismo ensina que a causa principal que determina a felicidade ou infelicidade reside em nosso interior e que somos protagonistas com o poder para decidir nosso próprio destino. Por isso, o budismo é chamado de “caminho interno”.
Em contrapartida, se observarmos as religiões e filosofias não-budistas, veremos que algumas não reconhecem o princípio de causalidade no que concerne à boa sorte ou ao infortúnio individual. Embora algumas exponham doutrinas de acidentalismo ou indeterminismo segundo as quais tudo é produto do acaso ou da coincidência, outras expõem doutrinas de determinismo ou de fatalismo segundo as quais tudo está predeterminado ou predestinado.
Há também aquelas que se posicionam no meio dessas duas perspectivas. Isto se refere aos ensinos dos três ascetas, considerados como fundadores das filosofias não-budistas da Índia. Há também doutrinas semelhantes que podem ser encontradas em muitas filosofias e correntes de pensamento existentes na atualidade.
Entre os sistemas de pensamento analisados por Nitiren, estão também aqueles que reconhecem o princípio de causalidade dentro dos limites da existência presente, mas não antes do nascimento ou após a morte, pois afirmam que o que ocorre depois não pode ser conhecido. Nessa categoria se enquadram o confucionismo e o taoísmo, e se inclui também o racionalismo ocidental que se fundamenta no desenvolvimento da ciência moderna.
Esses tipos de filosofias não podem explicar de maneira satisfatória as questões como: “Por que os seres humanos nascem em diferentes circunstâncias?” e “Por que, em certos casos, os efeitos do bem e do mal não aparecem nesta existência?”.
Dessa forma, não podem responder questões existenciais como: “Por que eu nasci?” ou “Qual o propósito de minha existência?”
O bramanismo e outros ensinos da Índia antiga expõem a causalidade da vida que permeia as três existências do passado, presente futuro, mas é uma causalidade influenciada pelo determinismo ou fatalismo e sujeita a forças externas como a natureza ou alguma divindade que controla o destino humano. Conseqüentemente, esses ensinos limitam seriamente a vontade e a autonomia humana.
Em síntese, os ensinos antigos da Índia e da China, com exceção do budismo, falham em explicar a causalidade ou o fazem de maneira parcial e tendenciosa. Esta é a conclusão de Nitiren. Assim, em “Abertura dos olhos”, ele diz a respeito dos fundadores dessas religiões e filosofias: “Nada mais são que bebês que não compreendem os princípios de causa e efeito”. (END, vol. 4, págs. 15-16.)
Porém, o budismo, o “caminho interno”, ensina que o indivíduo é responsável por tudo o que ocorre com ele, ou seja, cada um colhe o que semeia.
Podemos aceitar tranqüilamente o rigoroso princípio de causa e efeito agindo em nossa vida pela seguinte razão: por compreendermos a verdade de que possuímos inerentemente o ilimitado poder transformador conhecido como “natureza de Buda”.
Para continuarmos nos empenhando pela nossa felicidade, precisamos saber que a possibilidade para atingi-la reside em nós.
O budismo possibilita-nos despertar para a nossa responsabilidade e autonomia pessoal, ou seja, reconhecer que temos o poder de escrever nosso próprio destino por meio da nossa vontade e das nossas ações no presente.
2. Comparação entre Budismo Mahayana e Budismo Hinayana.

Em “Abertura dos olhos”, Nitiren menciona pouco sobre esta comparação em particular. Contudo, pelo fato de ele censurar os discípulos dos dois veículos, que eram praticantes dos ensinos do Hinayana, nas suas comparações entre o Mahayana verdadeiro e o provisório e entre os ensinos teórico e verdadeiro do Sutra do Lótus, podemos considerar que nelas está inclusa a comparação entre Budismo Mahayana e Hinayana.
O budismo é chamado de “caminho interno”. No entanto, ele abarca uma ampla variedade de ensinos. Entre eles, os do Hinayana buscam libertar as pessoas dos desejos mundanos, que são a causa do sofrimento, e atingir o nirvana — estado de suprema paz e tranqüilidade — mediante práticas como a observância de preceitos e a meditação.
Porém, a felicidade a que aspiram os ensinos do Hinayana é passiva, porque só buscam eliminar a causa da infelicidade das pessoas. Não permitem ao ser humano abrir o caminho ativamente para sua própria felicidade e, muito menos, a dos demais.
Como o Hinayana defende que os desejos mundanos dos nove estados inerentes em nossa vida são a causa da infelicidade, a única forma de eliminá-los completamente é extinguindo a vida. Por isso, é dito que, para o Hinayana, o enfoque da iluminação está em reduzir o corpo a cinzas e aniquilar a consciência. Nesse ponto encontra-se a limitação do Budismo Hinayana.
Em contraste, os ensinos Mahayana, em vez de procurar eliminar os desejos mundanos, afirmam que é possível controlá-los adequadamente e construir uma vida pura, forte e automotivada, abrindo e manifestando a sabedoria da iluminação que se encontra dormente na mesma vida cheia de desejos. Este é o princípio chamado de “desejos mundanos são iluminação”. Muito mais do que simplesmente possibilitar às pessoas eliminar as causas da infelicidade, buscam ativamente capacitá-las a transformar essas causas de infortúnios em causas para a felicidade, e conduzir seus semelhantes à iluminação.
3. Comparação entre Budismo Mahayana verdadeiro e provisório
Os ensinos do Mahayana, que buscam possibilitar às pessoas manifestar as causas para a felicidade, dividem-se em duas categorias: o Mahayana verdadeiro e o Mahayana provisório.
O Sutra do Lótus, que constitui o Mahayana verdadeiro, esclarece que a vida de todas as pessoas está originalmente dotada do estado de Buda, a causa fundamental da felicidade. Revela também uma outra verdade: todas as pessoas podem manifestar e revelar a natureza de Buda em sua vida.
Os ensinos do Mahayana anteriores ao Sutra do Lótus, que constituem o Mahayana provisório, defendem que as pessoas dos dois veículos, desprezadas porque só buscavam a própria iluminação como também as pessoas más e as mulheres, que se acreditava serem incapazes de se tornarem felizes, não estão dotadas intrinsecamente da natureza de Buda. Dessa forma, esses ensinos impõem limitações às causas da felicidade. Não pertencem ao Mahayana verdadeiro.
São ensinos expostos como meios para adequação às crenças populares da época. Nada mais são que ensinos provisórios.
Por outro lado, o Sutra do Lótus, o ensino verdadeiro, elucida a iluminação real do Buda com base no fato de que todas as pessoas — incluindo as dos dois veículos, as pessoas más e as mulheres — podem igualmente atingir a iluminação. Elucida também que esta questão está fundamentada na doutrina dos três mil mundos num único momento da vida.
A verdadeira intenção do Buda é que todas as pessoas tornem-se felizes. E é no Sutra do Lótus que a iluminação do Buda é diretamente revelada ao expor os princípios que a torna possível.
4. Comparação entre ensinos teórico e verdadeiro do Sutra do Lótus
Embora todas as pessoas possuam em sua vida o estado de Buda — causa fundamental da felicidade —, a questão é como manifestá-lo na vida real.
Se analisarmos do ponto de vista da eternidade da vida e do princípio de causa e efeito que abrange o passado, o presente e o futuro, o estado de vida que experimentamos no presente é produto de nossas ações (carma) acumuladas desde incontáveis existências passadas. Os sutras anteriores, incluindo o ensino teórico (primeira metade) do Sutra do Lótus, ensina que, para transformar esse carma, necessitamos constantemente realizar boas ações por um período extremamente longo, e acumular benefícios dessas ações em nossa vida. Por esse ponto de vista, atingir a iluminação requer incontáveis kalpas de prática budista.
Esses sutras ensinam ainda que o Buda Sakyamuni atingiu a iluminação pela primeira vez na Índia como resultado de suas práticas realizadas durante um período de tempo incalculável. Essa forma de ver a iluminação persiste no erro de rejeitar e procurar eliminar os desejos mundanos nos nove estados. Esse enfoque sugere que somente extinguindo nossa vida dos nove estados (causa) é que podemos fazer surgir a vida do estado de Buda (efeito).
Em contraste, o ensino essencial (segunda metade) do Sutra do Lótus esclarece que Sakyamuni realmente atingiu o estado de Buda no remoto passado, há kalpas tão numerosos quanto as partículas de pó de um grande sistema de mundos e, pelo fato de sua vida como um bodhisattva ter perdurado desde então, ele continuou a aparecer sob várias formas para ensinar os seres vivos. Isso revela a verdadeira imagem do Buda. Em outras palavras, os nove estados e o estado de Buda também se encontram inerentes na vida de Sakyamuni.
Ao explicar isso, o ensino essencial revela que podemos manifestar o estado de Buda em nossa vida dos nove estados, tal como somos, e que é possível abrir o caminho da iluminação exatamente como somos.
5. Comparação entre Budismo da Semeadura e Budismo da Colheita
O ensino essencial do Sutra do Lótus abre o caminho para pessoas comuns possam atingir o estado de Buda exatamente como somos - um ensino inédito, nunca visto nos ensinos anteriores do Sutra do Lótus. Porém, quando vistos no contexto de seu significado literal e superficial, observamos que Sakyamuni só conseguiu adquirir a vida eterna como resultado de ter praticado o caminho de bodhisattva antes de sua iluminação no remoto passado.
Para chegar a essa vida eterna, ele precisou atingir o primeiro estágio de segurança, o da não-regressão. Dessa forma, por ter atingido esse estágio, foi capaz de romper com sua fé resoluta a escuridão fundamental, de adquirir sabedoria e perceber que os nove estados e o estado de Buda se encontram sempre presentes na própria vida sob forma inata.
Contudo, a prática necessária para atingir o primeiro estágio de segurança é extremamente difícil, da mesma forma como é difícil atingir a sabedoria que permite perceber o estado de Buda na própria vida. Ambos os feitos excedem a capacidade das pessoas comuns. Dessa maneira, do ponto de vista de seu significado literal, o ensino essencial não abre diretamente o caminho para as pessoas comuns atingirem o estado de Buda em sua presente forma e atingir a iluminação nesta existência.
Mas o ensino implícito nas profundezas do Sutra do Lótus — ou seja, o Budismo Nitiren — revela diretamente o Nam-myoho-rengue-kyo, que é a força motriz que sustentou a prática de bodhisattva de Sakyamuni para atingir o primeiro estágio de segurança no remoto passado, e é, ao mesmo tempo, a Lei fundamental que ele percebeu naquele momento. Ao buscar e praticar esta Lei com fé, uma pessoa comum pode obter imediatamente o fruto do estado de Buda.
Nitiren nos deixou Gohonzon, no qual representou fielmente o estado de Buda que percebeu em sua própria vida mediante o Nam-myoho-rengue-kyo, sem deixar de ser uma pessoa comum. Com este Gohonzon como espelho, e com Nitiren como exemplo, podemos fazer surgir instantaneamente esse estado iluminado de nosso interior, com a profunda fé e a convicção de que nós também possuímos o estado de Buda.
Nesse contexto, o Budismo Nitiren é o único ensino que expõe a transformação do destino. Ensina também que a causa principal do mau destino se encontra nos atos de descrença e de oposição à Lei Mística. Como ela é uma lei que está inerente na vida, esses atos são cometidos contra a Lei ou verdade da própria vida. Eis a razão de ser a principal causa negativa.
A fórmula de mudar o destino proveniente dessa causa na presente existência encontra-se no ato de acreditar na Lei Mística, isto é, na verdade inerente na vida. E a prática dessa fórmula é a recitação do Nam-myoho-rengue-kyo.
Por meio dessa prática, individual e altruísta, a energia vital e o potencial do estado de Buda são fortalecidos para possibilitar a transformação do destino em direção à felicidade.
Fim